sexta-feira, maio 06, 2005



quarta-feira, maio 04, 2005

Do homem que achava coisas sem sentido umas nas outras, simplesmente porque lhe aconteceu isto

por Lucas

Pois é que Pedro acordou um dia e começou a achar as coisas esquisitas. Todos os significados abstratos do mundo pareciam estar óbvios e sensíveis à flor da pele nas coisas em volta. Logo na manhã, sentiu cheiro de mistério no ar, por mais que mistério não possua, de fato, um odor reconhecível. O mundo inteiro estava assim naquele dia: o beijo de sua esposa tinha gosto de preguiça, as nuvens no céu eram da cor da revolta, o choro de seu filho tinha o som do medo e a textura da parede era a mesma exata que tem o conforto. Nunca foi dado a poeta, muito menos era uma dessas pessoas que arranjam imagem ou ficam achando significado nas coisas; disso Pedro concluiu que deveria estar doente, (por mais que sua mulher até invejasse doença que deixa a gente ver mais do que as coisas) e tomou o rumo do clínico geral.
Curioso, meu rapaz – o médico era um velho da idade da terra que chamava a todo mundo de meu rapaz ou minha filha, com dentes que pareciam o passado – parece que você está com uma metáfora inflamada! Quis saber o que é isso. Bom, uma metáfora, na forma mais clássica, consiste no uso de uma imagem para significar uma idéia; em outras palavras, dar uma forma concreta para um conceito abstrato. A sua metáfora se inflamou e agora você anda por aí vendo coisas abstratas em tudo! Se você não se cuidar, acaba evoluindo para um pedantismo crônico, doença violenta em que uma pessoa abandona o mundo real para viver numa falsa forma poética de que ninguém gosta. Ora essa, Pedro nem achava que tinha uma metáfora, e agora essa lhe estava dando problemas? Só de curiosidade, conferiu as radiografias. Nossa, está feia mesmo! Comentou enquanto se chocava com o fato de existir uma glândula tão importante escondida logo naquele ponto.
O tratamento envolvia um remédio, rosado como um pesadelo e amargo que nem desapego. Não trabalhou, o barulho do escritório era perigoso – podia parecer demais com a angústia do homem moderno. Em casa, todo o cuidado. A televisão ficava desligada, para não ser a estupidez da humanidade nem o sossego do lar. Todas as comidas eram as mais inodoras e apáticas possíveis; qualquer sabor mais apimentado virava a fúria da pessoa comum contra a opressão do sistema, no furor das estéticas oriundas do punk. E assim, cada vez piorando, cada vez menos vendo as coisas que são e só pensando no que elas queriam ser, passou um mês até que decidissem operar.
O hospital era o potencial para o bem; a maca, a vontade de viver e de morrer ao mesmo tempo e a anestesia era a simplicidade da vida colocada em termos neo-aristotélicos. Os bisturis cortaram a carne prepotente e encontraram o caroço viscoso e apaixonado da metáfora. Estava rígida, imensa, assombrosa. A esposa se perguntava como Pedro nunca reclamou da dor que aquele órgão terrível deveria causar em recanto tão estreito do corpo; sentiu uma pontada na sua própria metáfora, só de pensar em tê-la arrancada. A operação foi bem sucedida e, após a recuperação, ele agora é mais um manso cidadão sem nenhum problema de excesso de poesia ou qualquer frescura intelectualóide. Tudo de graça, o único preço foi o encanto da vida, que, ao contrário do que acontecia antes, ele jamais sentirá quando comer algodão-doce.

domingo, maio 01, 2005

Encontro

Abstraí-me das proporções e transformei mar em rio.
Um avião tornou-se pássaro, fruto de nova abstracção. Esqueci que ave respira e avião expira.
De abstracção em abstracção, dias transformaram-se em horas e horas em minutos. Segundos. Infinito.

quinta-feira, abril 28, 2005

Só é fim quando acaba

(por Filipe Torres)

Tinha voltado, ela e seu ranço de lama podre cheirando a passado. Na minha frente, eu no sofá tomando meu café e ela em pé e pose de superioridade. Ela e aquele cheiro de roça que eu tanto odiava, misturado com perfume barato que insistia chamar de francês legítimo.Uns tantos minutos sem palavras - mortais instantes que mal conseguia sorver os goles da xícara.

Tinha o olhar voraz e instigante de sempre, querendo devorar entranhas. Presumi ouvir grunhidos de raiva, como cão preste a latir furiosamente contra o invasor. Engraçado que, no caso, ela era a invasora.

Antes de mover os lábios, eu despejei, ainda no meu grau de serenidade: Não sei como conseguiu a chave da minha casa. Eu pensei que estava claro que tudo tinha acabado. Meu afeto (e veja bem, Afeto! e não Amor) acaba quando a recíproca não é verdadeira. E olha que fiz de tudo pra colocar na tua cabeça que tinha acabado, e você ameaçou queimar a casa. Sumi sim, e não arrependo, principalmente depois de você agredir a minha irmã. Acabou. Nem adianta dizer nada.

- Só é fim, quando acaba...

E foi nesse dia que aprendi que, na verdade, só acaba com cinco tiros de 38mm no abdômen.

terça-feira, abril 26, 2005

de palavras fáceis

Em dez minutos o rádio-relógio te acordará. Você dorme de uma forma bela, diferente, não sei... Nunca cansei de te ver dormir mesmo depois desses anos todos. Tua imagem não me cansou. Literatas palavras eruditas não me faltariam para te descrever assim, tão shakespeariana. Mas dispenso as belas formas em homenagem ao teu suposto sono.

Falta pouco. Hoje é o dia em que vou embora. Deixei para última hora o terror em te falar isso. Não sei falar essas coisas que te magoam. Em dez minutos te magoarei. Tem de ser ao acordar. Horas a mais aumentariam a tormenta.

O relógio me condena com o primeiro açoite. Pelo teu respirar sei que finge dormir tanto quanto eu. Viro para calar o contratempo e aproveito para te dar as costas. A primeira vez de muitas daqui pra frente.

Sinto seu beijo úmido em minha nuca. E esse sopro para resfriar a saliva me causa arrepios indefiníveis. Sua língua já tão bem acordada percorre meu pescoço. Estou teso, o misto de desejo e medo petrificam a ereção. Não há como negar ao toque da sua mão. Meu corpo me condena e sempre teima em dizer o oposto do que quero falar.

Me fervilha a consciência e teus dedos me queimam o falo. Gostaria que nessa hora masturbasse a minha mente e que as palavras certas ejaculassem em gozo farto.

Mas não! Tua boca quente me amorna a brasa e deliro em suspiros numa contradição banal entre pensar e sentir. Os gemidos de angústia se misturam aos da leve dor do prazer. E eu ali, em momentos eternos a te corresponder em partes púdicas, comendo teus suspiros de gosto. Imaginando teus soluços de choro.

Me prende a pélvis pela boca como se esta fosse a última vez. E de fato a é. Tenho alguns minutos antes de terminar. Tenho o tempo necessário para aprender a dizer as coisas que te magoam.

No ímpeto te seguro a cabeça e maldosamente me acabo antes que se afaste. O gosto meio amargo da agressão não foi o suficiente para que me odiasse. Como queria que agora me odiasse. Por hoje. Mas indevidamente me ama. E demonstra. E agradece. Como se abrisse o peito para uma primeira facada.

O olhar mudo é prenúncio.
Tem de ser agora.
As palavras ensaiadas durante a madrugada parecem perder o sentido ante a luz fraca que adentra a fresta da janela. Palavras de adeus tem medo da claridade. Eu tenho medo da claridade. Estou com vergonha de te encarar na luz.


- Tenho uma coisa pra te dizer.

- Psssss... Não precisa falar nada.

E antes que eu responda, me cala com um beijo amargo de gosto meu. Você sempre soube que hoje começaria o fim.

quarta-feira, abril 20, 2005

estudos, a verdade por trás da sentença

well, como a convidada deu um leve cano, amanhã é feriado e tal, publico hoje.

***

Ao contrário do que pensa a maioria, o dito popular Amigo de Cu é Rola não tem nenhum caráter sexual em sua origem.

A sentença nasceu durante o governo do excêntrico - sempre eles - Kenshui Kitamorto que adotou uma rolinha* que adorava dar picadinhas suaves e cuidadosas no seu majestoso cu imperial.

Kenshui ficou surpreso ao ouvir numa noite fria seu cu dizer em alto e bom som 'Ei rolinha camarada, vem cá!'e, maravilhado, nomeou seu cu ministro da casa civil e a rolinha* ministra da fazenda. Foi justamente aí que a sentença ganhou esse cunho, digamos, agressivo.


* imagens ilustrativas

domingo, abril 17, 2005

De alto, a baixo...

Vivia fazendo-lhe favores. Cada qual sobe na vida com os talentos que tem, oras! E depois? A consciência? Às vezes só atrapalha...
Então, o seu amigo, a quem fazia favores, era chefe da secção de embalagem do supermercado onde ela trabalha. E ela queria subir às prateleiras mais altas para arrumar os caixotes de papelão segundo os tamanhos. Ele pegava nela ao colo e espreitava por baixo das suas saias leves e curtas... Flutuantes e ondulantes.. Não serviam para ocultar nada. Apenas serviam para não mostrar o que beatas e transeuntes preocupados com as vidas alheias não queriam ver. As coxas morenas e fortes das caminhadas matinais e dos queijos frescos às refeições. Com fruta. Sempre.

Ora, dietas à parte, ela permitia ser observada dessa perspectiva pouco usual. Só para poder arrumar as caixas ordenadamente. Não se incomodava. Um dia, depois de ter arrumado tudo, e de já não haver mais nada para arrumar, foi promovida. Compraram-lhe um escadote, para poder subir mais alto e arrumar as suas caixas.

Quando o amigo a denunciou pelas suas vestimentas simples e soltas, curtas e estonteantes, rotulando-as como provocadoras, a ela e às vestes, exclamou com sotaque:

“meu cu não é teu amigo não, sua rola! Ele sempre te olhou de cima enquanto te deleitavas com a vista! É superior a onças e seus amigos. Até mais ver!”

Agarrou no seu escadote e mudou-se para a secção de refrigerantes onde pôde fazer pirâmides gigantescas de latas de cerveja. Ninguém empilhava melhor do que ela.

O amigo, da onça, olhava-a de longe, enquanto subia ao escadote para colocar as latas do topo. Enquanto invejava o moço que de baixo, passava as latas à moça...